8.2.10



com um cão em cada dedo
as minhas mãos continuam à espera
de um poema que me leve daqui

era bom caminhar dentro do fumo
acender um cigarro e ser o próprio sopro
erguer-me do outro lado do meu corpo

gostava de me transformar numa palavra
não importa a ferida que possa causar
quando acontece um rosto por acaso



1.2.10

dedicado à graça pires



sabes, mãe. uma asa não deixa de bater
porque cai do corpo de um pássaro.

o nome que nos dão, ao nascer,
fica nos retratos, nos envelopes intactos,
nos poemas que hás-de escrever.

às vezes, é o medo que escreve,
outras é o vento, quase sempre
é o vento que escreve, mãe,
quase sempre é o medo.

25.1.10

teoria da perversidade




às vezes, mostram na televisão os mortos do haiti. filas ou conjuntos de corpos amontoados, como se fossem lixo. se eu morrer, não quero ser um cadáver no ecrã. o corpo não é só matéria, carne e sangue. a nossa personalidade é intrínseca, a nossa história de vida está dentro de nós. chama-se jornalismo à exposição de um olhar moribundo?

às vezes, penso que criaram este sismo como um vírus no computador. que puseram máquinas tremideiras nas encostas da ilha, unidas por cabos, programadas à escala de richter. que alguém deu ordem para accionar um botão e fez tremer,
fez tremer a terra.

um sismo, no século 21, com a tecnologia existente, está à distância de um click. o mundo, para sair da crise, precisa de rostos em agonia. nada melhor do que um cenário de horror para que se multipliquem em todas as línguas os sinais de auxílio. matam-se uns quantos para se mobilizarem milhões... e enquanto as pessoas se lembrarem do quanto sofrem as vítimas do caos, nem têm coragem de lamentar os seus problemas. parece que alguém quis mandar calar o povo.

vejam estes corpos sem enterro, nem vala comum, o destino maldito que tiveram, dizem eles. e nós, enquanto aguardamos a nossa vez na fila do desemprego, aproveitamos a espera para fazer chamadas de valor acrescentado, damos o nosso contributo, enviamos donativos, fazemos girar a economia a nível global.

às vezes, penso que o haiti era o sítio perfeito para o que aconteceu. que era um país pobre, carente, praticamente esquecido num canto, o seu povo quase uma espécie de insectos sem interesse nenhum. não custava nada criar mais uma ou duas réplicas de intensidade controlada para dar veracidade à natureza do fenómeno.

oxalá eu esteja profundamente errada.
e que a terra não volte a tremer.

20.1.10



a minha pele é por enquanto um livro sem palavras.
às vezes, penso nas duas primeiras células, na longa
viagem que uma fez ao encontro da outra, no segredo
genético do tempo, no enigma da vida. se o meu
entendimento não consegue atingir um milagre,
sou apenas a função biológica de um filme parental.
até poderia ter uma legenda como a do telejornal,
este programa teve ajuda à produção de
(em que a palavra programa fosse
substituída pela palavra ser),
seguindo-se os nomes dos meus pais.
como assim, perguntais?
as minhas mãos, digo, nem
sempre me escrevem.


11.1.10

poesia e ciência




De hoje a um mês, participo numa conferência subordinada ao tema Poesia e Ciência, inserida no Ciclo de Conferências Diálogos com a Ciência, coordenado por Vicente Ferreira da Silva. Nesta conferência participam Gabriela Rocha Martins, Vitor Oliveira Jorge e Nuno Júdice. É a primeira vez que participo numa conferência na qualidade de conferencista, o que muito me honra, tendo em conta o tema e, sobretudo, o painel. Esta experiência tem tanto de privilégio como de grande responsabilidade, tanto mais que, ao lado dos nomes acima citados, pouco poderei dizer. Não sou poeta, na medida em que não vivo da escrita, nem possuo obra publicada ao ponto de considerar esse título viável, nem tão pouco sou cientista. No entanto, após muita ponderação sobre o tema, creio poder falar sobre poesia e ciência, nomeadamente no aspecto em que esta última presta um serviço à primeira. No meu caso pessoal, há muito que deixei de usar papel e esferográfica para escrever. Não sou capaz, aliás, de pensar na escrita sem fazer uma associação mental imediata ao computador. Não me lembro, sequer, do último poema ou texto que escrevi à mão. Posso mesmo confessar que tenho dificuldade em reconhecer a minha própria caligrafia, devido à mudança de hábito que se operou em mim ao longo dos anos. Ora, naturalmente, esta mudança é universal, e a informática, entre uma das muitas ciências de que dispomos, transformou os comportamentos, ao ponto de, escrever num computador, ser hoje uma atitude tão natural, como há uns anos o era num papel, e antes disso numa pedra, e assim sucessivamente. Além disso, a internet permitiu a muitas pessoas, através dos blogues e das redes sociais, partilharem o seu pensamento. Aqueles, cujas palavras estavam engavetadas ou encadernadas tiveram oportunidade de as divulgar a um público vasto. Sem o computador, sem a internet, e sem os blogues, jamais o meu nome poderia constar de uma conferência. Resta-me agradecer ao Vicente e convidá-los atempadamente para no próximo dia 11 de fevereiro às 21h30 nos encontrarmos na Reitoria da Universidade do Porto.





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