
às vezes, mostram na televisão os mortos do haiti. filas ou conjuntos de corpos amontoados, como se fossem lixo. se eu morrer, não quero ser um cadáver no ecrã. o corpo não é só matéria, carne e sangue. a nossa personalidade é intrínseca, a nossa história de vida está dentro de nós. chama-se jornalismo à exposição de um olhar moribundo?
às vezes, penso que criaram este sismo como um vírus no computador. que puseram máquinas
tremideiras nas encostas da ilha, unidas por cabos, programadas à escala de richter. que alguém deu ordem para accionar um botão e fez tremer,
fez tremer a terra.
um sismo, no século 21, com a tecnologia existente, está à distância de um click. o mundo, para sair da crise, precisa de rostos em agonia. nada melhor do que um cenário de horror para que se multipliquem em todas as línguas os sinais de auxílio. matam-se uns quantos para se mobilizarem milhões... e enquanto as pessoas se lembrarem do quanto sofrem as vítimas do caos, nem têm coragem de lamentar os seus problemas. parece que alguém quis mandar calar o povo.
vejam estes corpos sem enterro, nem vala comum, o destino maldito que tiveram, dizem eles. e nós, enquanto aguardamos a nossa vez na fila do desemprego, aproveitamos a espera para fazer chamadas de valor acrescentado, damos o nosso contributo, enviamos donativos, fazemos girar a economia a nível global.
às vezes, penso que o haiti era o sítio perfeito para o que aconteceu. que era um país pobre, carente, praticamente esquecido num canto, o seu povo quase uma espécie de insectos sem interesse nenhum. não custava nada criar mais uma ou duas réplicas de intensidade controlada para dar veracidade à natureza do fenómeno.
oxalá eu esteja profundamente errada.
e que a terra não volte a tremer.